Nutri Manola Miranda

Como preparar o corpo para engravidar

Exames e suplementação antes de engravidar: o que a ciência diz sobre preparar o corpo para o positivo

Em resumo: a preparação do corpo para engravidar começa bem antes do positivo, no período pré-concepcional de cerca de 90 dias em que óvulos e espermatozoides amadurecem. Nessa janela, a diferença entre ácido fólico e metilfolato, exames além do básico como ferritina e vitamina D, e a nutrição do casal como um todo, incluindo o parceiro, moldam a qualidade dos gametas e o ambiente que vai receber o embrião. Neste guia você entende o que a ciência recomenda para preparar o corpo com segurança antes de tentar engravidar.

Grande parte das pessoas já sabe que se cuidar durante a gestação é essencial para manter as 40 semanas saudáveis. O que ainda pouca gente busca entender é que esse cuidado começa antes mesmo da concepção, num período que a ciência já reconhece como decisivo para a saúde do futuro bebê.

Hoje já falamos muito sobre a importância dos primeiros 1.100 dias, o conceito mais atual da nutrição materno-infantil, que soma os cerca de 1.000 dias entre a concepção e os 2 anos de vida da criança aos aproximadamente 100 dias do período pré-concepcional, quando os gametas que vão dar origem a esse bebê ainda estão se formando. É essa janela ampliada que a ciência reconhece hoje como a mais sensível para a construção da epigenética infantil.

Muitas gestantes chegam até mim já tomando ácido fólico desde antes de engravidar, o que seria ótimo, não fosse por dois detalhes que fazem toda a diferença: a forma em que esse nutriente está sendo oferecido e o tempo de antecedência com que ele começou a ser usado.

A janela dos 90 dias
Como preparar o corpo para engravidar - ovogênese e espermatogênese

Quando falamos de ovogênese e espermatogênese, estamos falando de um processo que leva, em média, 90 dias, o tempo que os gametas femininos e masculinos levam para amadurecer completamente e estarem em condições plenas de formar um embrião saudável. A espermatogênese completa dura cerca de 74 dias, e somando o tempo de maturação e transporte do espermatozoide, o ciclo todo se aproxima dos 3 meses. Do lado feminino, o óvulo que será liberado numa determinada ovulação também vem passando por um processo de maturação folicular que se estende por aproximadamente esse mesmo período, e é justamente nessa fase que ele fica mais sensível ao ambiente hormonal, nutricional e oxidativo do corpo.

É essa fisiologia que define a janela perfeita de oportunidade: os 90 dias antes da tentativa são o momento em que a nutrição e a suplementação têm mais capacidade de impactar a qualidade final do óvulo e do espermatozoide. Uma revisão sistemática da Cochrane, publicada em 2022 e reunindo 90 estudos com mais de 10 mil homens, encontrou benefício estatisticamente significativo da suplementação antioxidante sobre as taxas de gravidez clínica e nascidos vivos¹, reforçando que esse período de preparo realmente se traduz em resultado.

No que diz respeito à suplementação, vários nutrientes são tão importantes quanto o ácido fólico: vitamina B12, zinco, Coenzima Q10 e ômega 3 atuam juntos para favorecer a fertilidade e a fecundação. Mas isso nunca foi, e nunca será, uma receita de bolo igual para todo mundo. Cada casal tem uma história, e é essa história que define dosagens e prioridades numa consulta nutricional pré-concepcional.

Ácido fólico x metilfolato:

Ácido fólico x metilfolato - Como preparar o corpo para engravidar

E para otimizar tudo isso, também pensamos na biodisponibilidade dos nutrientes, e é aí que entra o ácido fólico, o nome mais conhecido dessa fase, mas nem sempre o mais bem compreendido.

A maioria das formulações vendidas em farmácia traz esse nutriente na forma de ácido fólico, a forma sintética. Só que, para ser usado pelo corpo, o ácido fólico precisa passar por uma conversão enzimática até virar metilfolato, a forma ativa que o organismo de fato utiliza. Algumas pessoas têm variantes no gene MTHFR que reduzem a eficiência dessa conversão, e uma revisão de 2022 mostrou que a suplementação direta com metilfolato eleva o folato plasmático de forma mais eficiente do que o ácido fólico, sem gerar o acúmulo da forma não metabolizada que a suplementação sintética em excesso pode causar².

Na dúvida entre esperar para saber se a paciente tem ou não a variante genética e já suplementar na forma que o corpo com certeza consegue aproveitar, a escolha mais segura é clara. Vale lembrar que o fechamento do tubo neural do bebê acontece muito cedo, entre a 4ª e a 6ª semana de gestação, muitas vezes antes mesmo da mulher descobrir que está grávida. Por isso não vale apostar no “pode ser que ela tenha ou não a deficiência”. Vale suplementar já na forma ativa de metilfolato, hoje facilmente encontrada pronta ou manipulada.

Preparando o “ninho”

Toda a atenção que damos ao óvulo e ao espermatozoide precisa vir acompanhada de cuidado com o local que vai receber esse embrião. O endométrio, o tecido que reveste o útero, também depende de um ambiente nutricional favorável para se preparar: uma boa vascularização e espessura adequada são o que chamamos, carinhosamente, de “ninho” pronto para receber a fixação do embrião.

O ômega 3 tem papel documentado nesse processo. Uma revisão sistemática de 2022 publicada no European Journal of Obstetrics and Gynecology and Reproductive Biology, sobre a ingestão de ômega 3 em mulheres em tratamento de reprodução assistida, mostrou associação com melhora na qualidade ovocitária e nos desfechos reprodutivos avaliados³, resultados que caminham junto com o papel desse nutriente na qualidade do ambiente uterino como um todo. A Coenzima Q10 soma-se a esse cuidado atuando na função mitocondrial das células, o que sustenta tanto a maturação do óvulo quanto a qualidade do tecido endometrial.

Cuidar do corpo antes de engravidar é a garantia de que o bebê vai chegar num ambiente já favorável. No primeiro trimestre, o embrião e depois o feto dependem quase inteiramente das reservas nutricionais da mãe, o que reforça ainda mais por que esse corpo precisa estar bem preparado antes de recebê-lo, e não só depois que o teste der positivo.

Exames que vão além do básico

Exames que vão além do básico

Uma consulta nutricional pré-concepcional de verdade não se limita a perguntar se você já toma vitamina. Ela avalia exames que costumam ficar de fora da rotina básica e que fazem muita diferença no resultado final.

A ferritina é um dos primeiros. Ela reflete o estoque de ferro do corpo, e pode estar baixa muito antes de qualquer sinal de anemia aparecer no hemograma, o que a torna um exame muito mais sensível para avaliar a reserva real da paciente. A vitamina D entra na mesma lista: uma revisão sistemática de 2022 publicada na Fertility and Sterility associou a deficiência de vitamina D no período pré-concepcional a maior risco de perda gestacional⁴. Some a isso um perfil inflamatório, porque um corpo em estado inflamatório crônico não é o ambiente ideal para nenhuma das etapas que já conversamos aqui, da maturação do óvulo à implantação do embrião.

O papel do parceiro

Aqui vai um lembrete que muita gente esquece: geneticamente, metade do material genético do bebê vem do pai. Isso, sozinho, já deveria ser motivo suficiente para incluir o homem em todo esse processo de preparação, e não só a mulher.

Uma metanálise em rede publicada em 2022 na Advances in Nutrition avaliou oito antioxidantes, entre eles zinco, selênio, carnitina e Coenzima Q10, em homens subférteis, e encontrou melhora significativa nos parâmetros de qualidade espermática com o uso desses nutrientes, com a Coenzima Q10 se destacando como uma das opções mais eficazes⁵. Isso faz todo sentido quando lembramos que a espermatogênese também segue aquele ciclo de aproximadamente 90 dias: o espermatozoide que vai fecundar o óvulo daqui a 3 meses está sendo formado agora, com os nutrientes e hábitos que o parceiro tem hoje.

Na prática, isso significa rastreio de exames, como o espermograma e um perfil hormonal básico, ajuste de hábitos de vida como tabagismo, consumo de álcool e exposição a calor excessivo, e sim, suplementação individualizada também para ele. Preparar o corpo para o positivo é, desde o início, uma tarefa de casal.

Cuidar do pré-concepcional não exige perfeição nem protocolo genérico. Exige tempo, os exames certos e as formas de nutriente que o corpo realmente sabe usar, o suficiente para dar ao seu futuro filho a melhor base biológica possível.

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Com carinho, Manola